ICHD-3 · IHS · SNOOP4

Dor de Cabeça Tensional e Cervicogênica:tratamento fisioterapêutico baseado em evidência

A maioria das dores de cabeça crônicas tem origem musculoesquelética — pontos-gatilho, postura, disfunção cervical alta. Protocolo da Dra. Erika Leite (CREFITO-3 nº 125770-F) com mobilização Maitland, agulhamento seco e exercícios de Jull. Vinhedo, Valinhos e Itatiba.

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Dra. Erika Leite tratando paciente com cefaleia em consultório de Vinhedo

Resumo rápido

Cefaleia tensional e cervicogênica respondem muito bem ao tratamento fisioterapêutico — mobilização cervical alta (Maitland), agulhamento seco em pontos-gatilho, exercícios de controle motor (Jull) e correção postural. Antes de medicar diariamente, investigue a origem musculoesquelética. Cuidado com MOH (cefaleia por uso excessivo de medicação).

O que é cefaleia tensional

Cefaleia tensional (CT) é a cefaleia primária mais comum no mundo. Pela ICHD-3 (Classificação Internacional de Cefaleias, 3ª ed.) é codificada em 2.x, com critérios bem definidos:

  • • Dor bilateral, em peso ou aperto (como faixa em volta da cabeça)
  • • Intensidade leve a moderada
  • • Não pulsátil
  • • Não piora com atividade física rotineira
  • • Sem náusea ou vômito; sem fotofobia/fonofobia marcantes; sem aura
  • • Duração: 30 minutos a 7 dias

Subtipos: episódica (até 15 dias/mês) e crônica (mais de 15 dias/mês por 3+ meses). Crônica geralmente envolve gatilhos sustentados — estresse crônico, postura, MOH.

O que é cefaleia cervicogênica

Cefaleia cervicogênica (ICHD-3 11.2.1) é cefaleia secundária — a dor vem de disfunção das articulações cervicais altas (C0-C1, C1-C2, C2-C3) e tecidos associados (raiz C2, nervo occipital maior, musculatura suboccipital).

Critérios de Sjaastad / IHS:

  • • Sempre unilateral, sempre o mesmo lado (sem alternar entre crises)
  • • Começa na região occipital ou cervical e irradia para frente
  • • Piora com movimento do pescoço ou pressão suboccipital
  • • Mobilidade cervical reduzida
  • • Pode haver dor referida no braço ou ombro do mesmo lado

É frequentemente subdiagnosticada — confundida com tensional ou enxaqueca. O teste de flexão-rotação cervical (CFRT) tem sensibilidade ~91% e ajuda a confirmar.

Tensional × cervicogênica × enxaqueca

CaracterísticaTensionalCervicogênicaEnxaqueca
LateralidadeBilateralUnilateral, mesmo ladoUnilateral, pode alternar
QualidadeAperto/pesoPressão, irradiadaPulsátil
IntensidadeLeve-moderadaModeradaModerada-grave
Náusea/fotofobiaRaroRaroMarcante
Gatilho típicoEstresse, posturaMovimento cervicalHormonal, sono, alimentar
Tratamento principalFisioterapia + manejo estresseFisioterapia cervicalNeurologista

Causas musculoesqueléticas

Postura prolongada / text neck

Cabeça anteriorizada sobrecarrega articulações cervicais altas e base do crânio.

Pontos-gatilho miofasciais

Trapézio superior, ECM, suboccipitais, temporal — referem dor à cabeça em padrões reconhecíveis.

Disfunção C1-C2 (cervical alta)

Mobilidade reduzida nas articulações superiores — gatilho clássico de cervicogênica.

Bruxismo e ATM

Tensão crônica em masseter, temporal, pterigoides — refere dor para cabeça.

Estresse crônico

Aumenta tonus muscular cervical, ativa pontos-gatilho, baixa limiar de dor.

Privação de sono

Sono ruim sensibiliza sistema nociceptivo central, amplifica cefaleia.

Pontos-gatilho que causam dor de cabeça

Cada músculo tem padrão de dor referida documentado (Travell & Simons). Identificar e desativar esses pontos é etapa central do tratamento de cefaleia tensional.

Trapézio superior

Dor referida para região temporal e atrás do olho — padrão clássico.

Esternocleidomastoideo (ECM)

Dor referida frontal, atrás da orelha, na bochecha; pode causar tontura associada.

Suboccipitais

Dor em ‘capacete’ — base do crânio irradiando para topo da cabeça e olhos.

Temporal

Dor pulsátil temporal e nos dentes superiores.

Masseter

Dor mandibular, ouvido, atrás do olho — comum em ATM/bruxismo.

Esplênios e semiespinhal

Dor occipital irradiando para o vértex.

Diagnóstico fisioterapêutico

  • Anamnese estruturada: características da dor, lateralidade, gatilhos, frequência, medicação, rastreio SNOOP4.
  • Teste de flexão-rotação cervical (CFRT): avalia C1-C2 — sensibilidade ~91% para cefaleia cervicogênica.
  • Palpação de pontos-gatilho: reproduz a dor referida característica do paciente.
  • Avaliação postural e ATM: cabeça anteriorizada, assimetrias mandibulares, click ATM.
  • Diário de cefaleia: dias do mês, gatilhos, medicação — fundamental para identificar MOH.

Tratamento — abordagem multimodal

  1. 1

    Mobilização cervical alta (Maitland C1-C2)

    Recupera mobilidade segmentar, reduz dor referida, especialmente eficaz em cervicogênica.

  2. 2

    Liberação de pontos-gatilho miofasciais

    Pressão sustentada, alongamento ativo, técnicas neuromusculares — desativa pontos ativos.

  3. 3

    Agulhamento seco

    Em pontos-gatilho ativos. Meta-análises mostram redução de frequência e intensidade.

  4. 4

    Exercícios de controle motor (Jull)

    Fortalecimento de flexores cervicais profundos. Reduz recorrência a longo prazo.

  5. 5

    Educação postural e ergonomia

    Modificar text neck, ajuste de monitor, pausas. Sem isso, qualquer ganho é temporário.

  6. 6

    Manejo de estresse e sono

    Higiene do sono, mindfulness, TCC se necessário. Cefaleia tensional crônica raramente é só muscular.

Agulhamento seco em cefaleia

Agulhamento seco (dry needling) consiste em inserção de agulha estéril em pontos-gatilho miofasciais ativos para desativá-los. É distinto da acupuntura — base é miofascial/biomecânica, não meridianos energéticos.

Evidência: meta-análises de France (2014) e Pourahmadi (2019) mostram redução significativa de frequência e intensidade em cefaleia tensional e cervicogênica quando aplicado em trapézio superior, ECM, suboccipitais e temporal. Aplicação requer formação específica e ambiente controlado.

MOH — Cefaleia por Uso Excessivo de Medicação

Uma das causas mais comuns de cefaleia crônica diária — e quase sempre subdiagnosticada. Ocorre quando o paciente toma analgésicos ou triptanos com frequência, gerando paradoxalmente mais dor de cabeça.

  • • Analgésicos simples (paracetamol, dipirona, AINEs): > 15 dias/mês → risco de MOH
  • • Triptanos, opioides, ergotamínicos: > 10 dias/mês → risco alto de MOH
  • • Padrão clássico: dor diária ou quase diária + necessidade crescente de medicação para alívio cada vez menor
  • • Tratamento: retirada gradual da medicação (sob orientação médica) + tratamento profilático adequado

Se você toma analgésico para dor de cabeça com essa frequência, o próprio remédio pode ser parte do problema. Vale conversa com neurologista.

Sinais de alarme — SNOOP4

Mnemônico para identificar cefaleia secundária grave que exige avaliação médica/neurológica imediata:

  • 🚨 Sistêmica: febre, perda de peso, infecção, imunossupressão, gestação, câncer
  • 🚨 Neurológica: alteração visual, fraqueza, parestesia, confusão, convulsão
  • 🚨 Onset súbito: dor severa que atingiu pico em segundos (“pior dor da vida”)
  • 🚨 Older: cefaleia nova após os 50 anos
  • 🚨 Pattern change: mudança brusca de padrão habitual de cefaleia

Aprofunde-se

Perguntas frequentes

Perguntas frequentes sobre dor de cabeça tensional e cervicogênica

Cefaleia tensional (ICHD-3 código 2.x) é a dor de cabeça mais comum no mundo. Caracteriza-se por dor bilateral em peso ou aperto (como uma faixa em volta da cabeça), de intensidade leve a moderada, sem náusea ou vômito, sem fotofobia/fonofobia marcantes, sem aura. É a chamada cefaleia primária mais frequente. Pode ser episódica (até 15 dias/mês) ou crônica (mais de 15 dias/mês por 3 meses).
Dra. Erika Leite, fisioterapeuta CREFITO-3 nº 125770-F, especialista em tratamento de coluna em Vinhedo SP

Sobre a autora deste conteúdo

Dra. Erika Leite

Fisioterapeuta clínica com mais de 16 anos de experiência dedicada ao tratamento de coluna e dor crônica. Formada pela UNG, Pós-graduada em Ortopedia e Traumatologia, certificada em McKenzie (MDT), Maitland, Mulligan e Quiropraxia Clínica. Atende em Vinhedo, Valinhos e região.

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