Resumo rápido
Cefaleia tensional e cervicogênica respondem muito bem ao tratamento fisioterapêutico — mobilização cervical alta (Maitland), agulhamento seco em pontos-gatilho, exercícios de controle motor (Jull) e correção postural. Antes de medicar diariamente, investigue a origem musculoesquelética. Cuidado com MOH (cefaleia por uso excessivo de medicação).
O que é cefaleia tensional
Cefaleia tensional (CT) é a cefaleia primária mais comum no mundo. Pela ICHD-3 (Classificação Internacional de Cefaleias, 3ª ed.) é codificada em 2.x, com critérios bem definidos:
- • Dor bilateral, em peso ou aperto (como faixa em volta da cabeça)
- • Intensidade leve a moderada
- • Não pulsátil
- • Não piora com atividade física rotineira
- • Sem náusea ou vômito; sem fotofobia/fonofobia marcantes; sem aura
- • Duração: 30 minutos a 7 dias
Subtipos: episódica (até 15 dias/mês) e crônica (mais de 15 dias/mês por 3+ meses). Crônica geralmente envolve gatilhos sustentados — estresse crônico, postura, MOH.
O que é cefaleia cervicogênica
Cefaleia cervicogênica (ICHD-3 11.2.1) é cefaleia secundária — a dor vem de disfunção das articulações cervicais altas (C0-C1, C1-C2, C2-C3) e tecidos associados (raiz C2, nervo occipital maior, musculatura suboccipital).
Critérios de Sjaastad / IHS:
- • Sempre unilateral, sempre o mesmo lado (sem alternar entre crises)
- • Começa na região occipital ou cervical e irradia para frente
- • Piora com movimento do pescoço ou pressão suboccipital
- • Mobilidade cervical reduzida
- • Pode haver dor referida no braço ou ombro do mesmo lado
É frequentemente subdiagnosticada — confundida com tensional ou enxaqueca. O teste de flexão-rotação cervical (CFRT) tem sensibilidade ~91% e ajuda a confirmar.
Tensional × cervicogênica × enxaqueca
| Característica | Tensional | Cervicogênica | Enxaqueca |
|---|---|---|---|
| Lateralidade | Bilateral | Unilateral, mesmo lado | Unilateral, pode alternar |
| Qualidade | Aperto/peso | Pressão, irradiada | Pulsátil |
| Intensidade | Leve-moderada | Moderada | Moderada-grave |
| Náusea/fotofobia | Raro | Raro | Marcante |
| Gatilho típico | Estresse, postura | Movimento cervical | Hormonal, sono, alimentar |
| Tratamento principal | Fisioterapia + manejo estresse | Fisioterapia cervical | Neurologista |
Causas musculoesqueléticas
Postura prolongada / text neck
Cabeça anteriorizada sobrecarrega articulações cervicais altas e base do crânio.
Pontos-gatilho miofasciais
Trapézio superior, ECM, suboccipitais, temporal — referem dor à cabeça em padrões reconhecíveis.
Disfunção C1-C2 (cervical alta)
Mobilidade reduzida nas articulações superiores — gatilho clássico de cervicogênica.
Bruxismo e ATM
Tensão crônica em masseter, temporal, pterigoides — refere dor para cabeça.
Estresse crônico
Aumenta tonus muscular cervical, ativa pontos-gatilho, baixa limiar de dor.
Privação de sono
Sono ruim sensibiliza sistema nociceptivo central, amplifica cefaleia.
Pontos-gatilho que causam dor de cabeça
Cada músculo tem padrão de dor referida documentado (Travell & Simons). Identificar e desativar esses pontos é etapa central do tratamento de cefaleia tensional.
Trapézio superior
Dor referida para região temporal e atrás do olho — padrão clássico.
Esternocleidomastoideo (ECM)
Dor referida frontal, atrás da orelha, na bochecha; pode causar tontura associada.
Suboccipitais
Dor em ‘capacete’ — base do crânio irradiando para topo da cabeça e olhos.
Temporal
Dor pulsátil temporal e nos dentes superiores.
Masseter
Dor mandibular, ouvido, atrás do olho — comum em ATM/bruxismo.
Esplênios e semiespinhal
Dor occipital irradiando para o vértex.
Diagnóstico fisioterapêutico
- Anamnese estruturada: características da dor, lateralidade, gatilhos, frequência, medicação, rastreio SNOOP4.
- Teste de flexão-rotação cervical (CFRT): avalia C1-C2 — sensibilidade ~91% para cefaleia cervicogênica.
- Palpação de pontos-gatilho: reproduz a dor referida característica do paciente.
- Avaliação postural e ATM: cabeça anteriorizada, assimetrias mandibulares, click ATM.
- Diário de cefaleia: dias do mês, gatilhos, medicação — fundamental para identificar MOH.
Tratamento — abordagem multimodal
- 1
Mobilização cervical alta (Maitland C1-C2)
Recupera mobilidade segmentar, reduz dor referida, especialmente eficaz em cervicogênica.
- 2
Liberação de pontos-gatilho miofasciais
Pressão sustentada, alongamento ativo, técnicas neuromusculares — desativa pontos ativos.
- 3
Agulhamento seco
Em pontos-gatilho ativos. Meta-análises mostram redução de frequência e intensidade.
- 4
Exercícios de controle motor (Jull)
Fortalecimento de flexores cervicais profundos. Reduz recorrência a longo prazo.
- 5
Educação postural e ergonomia
Modificar text neck, ajuste de monitor, pausas. Sem isso, qualquer ganho é temporário.
- 6
Manejo de estresse e sono
Higiene do sono, mindfulness, TCC se necessário. Cefaleia tensional crônica raramente é só muscular.
Agulhamento seco em cefaleia
Agulhamento seco (dry needling) consiste em inserção de agulha estéril em pontos-gatilho miofasciais ativos para desativá-los. É distinto da acupuntura — base é miofascial/biomecânica, não meridianos energéticos.
Evidência: meta-análises de France (2014) e Pourahmadi (2019) mostram redução significativa de frequência e intensidade em cefaleia tensional e cervicogênica quando aplicado em trapézio superior, ECM, suboccipitais e temporal. Aplicação requer formação específica e ambiente controlado.
MOH — Cefaleia por Uso Excessivo de Medicação
Uma das causas mais comuns de cefaleia crônica diária — e quase sempre subdiagnosticada. Ocorre quando o paciente toma analgésicos ou triptanos com frequência, gerando paradoxalmente mais dor de cabeça.
- • Analgésicos simples (paracetamol, dipirona, AINEs): > 15 dias/mês → risco de MOH
- • Triptanos, opioides, ergotamínicos: > 10 dias/mês → risco alto de MOH
- • Padrão clássico: dor diária ou quase diária + necessidade crescente de medicação para alívio cada vez menor
- • Tratamento: retirada gradual da medicação (sob orientação médica) + tratamento profilático adequado
Se você toma analgésico para dor de cabeça com essa frequência, o próprio remédio pode ser parte do problema. Vale conversa com neurologista.
Sinais de alarme — SNOOP4
Mnemônico para identificar cefaleia secundária grave que exige avaliação médica/neurológica imediata:
- 🚨 Sistêmica: febre, perda de peso, infecção, imunossupressão, gestação, câncer
- 🚨 Neurológica: alteração visual, fraqueza, parestesia, confusão, convulsão
- 🚨 Onset súbito: dor severa que atingiu pico em segundos (“pior dor da vida”)
- 🚨 Older: cefaleia nova após os 50 anos
- 🚨 Pattern change: mudança brusca de padrão habitual de cefaleia

